23 Jun 2024 Ellipse ATUALIZADO 05:02

Publicado

25/05/2020

Atualizado

31/01/2024
Publicação

ASSÚ TEM MEDO DE CULTURA? POLÍTICA PÚBLICA DE CULTURA COMO CONSTRUÇÃO DE EMANCIPAÇÃO HUMANA

Por José Elias Avelino, cursando Especialização em História, Cultura e Política pela FACESA. Graduado em História pela UERN. Militante cultural.

Convido você para que conheçamos um pouco mais sobre Assú, mas o nosso dialogo ocorrerá a partir da perspectiva das culturas da cidade, elas podem oferecer indícios que nos ajudam a compreender alguns dos elementos basilares da nossa terra.

Por arte vamos partir da sintética definição de Gombrich (2015), no seu livro clássico: A História da Arte, onde pontua que “nada existe realmente a que se possa dar o nome de arte. Existem somente artistas” (GUMBRICH, 2015, p. 15), a partir dessa lógica estabelecida por ele, podemos compreender a arte para além da perspectiva transcendente, exotérica, mística e essencialista. Gombrich (2015) sistematiza de forma crítica os critérios que estabelecem se uma produção artística será ou não elevada a condição de arte, assim ele retira o nebuloso véu da produção artística, revelando elementos como legitimidade, identidade e poder, sustentado o fazer artístico.

Para inicio de conversa, você já parou para pensar sobre os motivos que faz a cena cultural da terra da poesia não alçar grandes voos?

Vamos começar a nossa caminhada apresentando algumas figuras e fatos relevantes sobre a cena cultural de Assú que ocorreram a partir da virada do milênio e que transpuseram as cercanias geográficas projetando a cidade mundo a fora. Nas artes plásticas Wagner di Oliveira e Gilvan Lopes são nomes estabelecidos na cidade e no Estado do RN, inclusive, Wagner di Oliveira tem quadros espalhados por vários países e em 2017 expôs, a convite, algumas de suas obras no museu do Louvre em Paris.

Já o teatro de Assú ganhou muita qualidade com os cenários, adereços e engenhocas de Shicó do Mamulengo, os seus figurinos chegaram a ser indicados em 2012 para concorrer ao maior prêmio do teatro brasileiro, o prêmio Shell de teatro.

Shicó produziu cenário e figurinos para o mais importante e premiado grupo de teatro brasileiro das ultimas décadas, o Grupo Galpão, desenvolveu parcerias com o grupo os Clowns de Shakespeare de Natal e com várias companhias pelo país. Além disso, o trabalho de resgate que ele desenvolve com as brincadeiras do mestre mamulengueiro, Chico Daniel, garantiu a presença dele em vários festivais de mamulengo pelo nordeste brasileiro.

Quando nos detemos às expressões locais e regionais, há décadas, durante os períodos alusivos aos padroeiros das cidades da região, o alfenim de Assú percorre todo o Vale do Açu e cidades circunvizinhas colorindo e adoçando as festividades católicas. A qualidade da nossa argila e da cerâmica é famosas em todo o Estado do Rio Grande do Norte, quadrilhas juninas, capoeira, repente, hip-hop, a produção musical não cessa e o artesanato não para.

E se fizermos o exercício de ousar saltar o cercadinho do ufanismo rasteiro, nos deparamos com uma complexa e contraditória realidade em nossa cidade, se arte e cultura existem aos borbotões na terra da poesia o que está então impedindo o movimento cultural e artístico de finalmente criar corpo e contribuir ainda mais com a cidade?

Essa é uma pergunta que tem inquietado alguns gestores de cultura e alguns poucos fazedores de arte da cidade, e será a indagação central que orientará o percurso da nossa reflexão.

Individualmente algumas ações com vista a fortalecer a cena cultural já foram idealizadas e realizadas por artistas e produtores culturais de Assú; Arte em toda parte, Roda Poesia, Praça das Artes, Sarau da Resistência são alguns dos exemplos. Na universidade do Estado e nas escolas do município esbanjam saraus e recitais poéticos. Além disso, temos muitos “escritores domésticos”, pessoas que escrevem apenas como forma de expressar as idiossincrasias, mas que não tem por finalidade apresentá-las ao grande público.

Ao que concerne às iniciativas privadas, a cultura de Assú está ótima. Mas quando a conversa é sobre a política publica de cultura da cidade a coisa beira a calamidade, na verdade, não é nem possível estabelecer uma diálogo sobre política de cultura em Assú, já que nenhuma das gestões municipais da cidade chegou nem ao menos a esboçar a elaboração de uma política de cultura, entendemos por política publica “as respostas do Estado às demandas que emergem da sociedade e do seu próprio interior, sendo expressão de compromisso público de atuação numa determinada área há longo prazo” (CUNHA, 2002, p. 12). Dessa forma, a definição de política púbica está atrelada a capacidade da gestão pública de assumir compromissos com determinadas áreas, com ações sistemáticas a longo prazo, exatamente o que não existe em Assú.

Continuaremos esta reflexão na próxima coluna.

REFERÊNCIA

BRASIL. Constituição. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado Federal: Centro Gráfico, 1988.

CUNHA, Edite da Penha e CUNHA, Eleonora Schettini. M. Políticas públicas sociais. In: CARVALHO, Alysson. (org). Políticas Públicas. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2002.

FERNANDES. Antonio S. A. “Políticas Públicas: Definição evolução e o caso brasileiro na política social”. In: DANTAS, Humberto e JUNIOR, José Paulo M. (orgs). Introdução à

política brasileira. São Paulo: Paulus. 2007.

GOMBRICH, E.H. A história da arte. 16ª ed. Rio de Janeiro: LTC, 2015.

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