05 Mar 2024 Ellipse ATUALIZADO 07:37

Publicado

17/06/2020

Atualizado

31/01/2024
Publicação

O DIA EM QUE A NATUREZA RESOLVEU ENFRENTAR OS SERES HUMANOS

Por Tállison Ferreira, Graduado em Filosofia e Editor Colaborador do Observatório da Várzea

Vínhamos caminhando em um ritmo acelerado e fragmentado, na era do “cada um por si e Deus por todos”, até o dia em que a natureza resolveu enfrentar os seres humanos, não por vingança, mas para nos ensinar que a vida importa; que a Casa comum deve ser respeitada e cuidada; que um novo estilo de vida, mais sustentável, precisa ser adotado. Estou falando do poder letal do novo coronavírus face a fragilidade humana. A humanidade cheia de si, teve que recuar para não ser exterminada pelo inimigo invisível.

A sociedade planetária não é a mesma desde o final do ano de 2019, quando a pandemia do novo coronavírus, COVID-19, ganhou o mundo. Da cidade de Wuhan, na China, para o restante do planeta Terra. Sobre a origem do vírus, os casos foram associados ao mercado público de frutos do mar em Wuhan, “não descartando outras classes de animais selvagens vivos, o que inclui galinhas, morcegos, coelhos e cobras, apontados como fontes mais prováveis” (BBC NEWS). Diferentemente dos casos ocorridos entre os anos de 2002-2003 e 2012, a COVID-19 tomou uma proporção maior. Na era da globalização as doenças também se globalizam.

No Brasil, o índice apontou para mais de meio milhão de casos confirmados, com uma marcha acelerada para os trinta mil mortos, em maio de 2020. A falta de apoio político, por parte do governo federal, comprometeu os trabalhos do Ministério da Saúde, contraindo o pedido de demissão dos dois ministros: Luiz Henrique Mandetta, em 16 de abril de 2020, e do seu sucessor Nelson Teich, em 15 de maio de 2020. No país de Santa Cruz, o caos instaurado pela pandemia subdividiu-se em três crises: sanitária, política e econômica. Em um sistema colapsado, antes mesmo da pandemia, o desemprego disparou, e a deflação chegou a 0,31%, em abril de 2020.

Esse acontecimento não regular (não ordinário), foi capaz de interferir na rotina das pessoas, das atividades comerciais, interpessoais etc. de maneira sistêmica. Para o sociólogo Edgar Morin “o acontecimento, do ponto de vista sociológico, é tudo aquilo que não se se inscreve nas regularidades estatísticas.” (MORIN, apud, ALMEIDA. FRANÇA, Sociologia do presente, ciências da cultura, complexidade, 2019, p.51). Esse acontecimento, de caráter modificador pela emergência que permite a bifurcação, possibilita novas soluções.

O inimigo invisível destruiu uma multidão de vidas e trouxe enormes prejuízos tão somente aos seres humanos, pois a mãe Terra continua intacta, apesar das inúmeras chagas (poluição, desmatamento, queimadas etc.) abertas pelo homem. A COVID-19, em meio ao luto e a dor de tantas famílias, estimula mudanças de vida e propõe uma nova paisagem, que se configura diante dos nossos olhos.

Os pássaros continuam cantando livres e soltos, reproduzindo… eles não precisaram nem de isolamento e nem de distanciamento social. As estrelas estão a iluminar com um brilho muito mais intenso, enquanto a lua revela-se majestosa nas noites de junho, porque os carros estão parados em nossas garagens e suas luzes não ofuscam mais o brilho dos astros. Se observarmos o céu das grandes cidades, veremos que é outro. Estamos respirando um ar mais puro, pois a maioria das indústrias freou a sua produção, limitando os níveis de poluição. O índice pluviométrico aumentou significativamente, principalmente no nordeste brasileiro. No estado do Rio Grande do Norte, a Barragem Engenheiro Armando Ribeiro Gonçalves, no Vale do Açu, após oito anos, chegou a ultrapassar a margem dos 60% da sua capacidade, em junho de 2020. Rios, açudes e lagoas já conseguem abrigar seus peixes com mais tranquilidade. De fato, o homem precisava sair de cena. De certa forma, o isolamento social, feito a trancos e barrancos, permitiu a natureza respirar mais aliviada.

É preciso entender esse acontecimento – COVID-19 – como um elemento que desconfigura e configura uma nova fase da vida que se aproxima, ou seja, um novo estilo de vida após a pandemia do coronavírus; isso pressupõe que o homem a assumirá uma nova postura frente a natureza na Casa comum onde vive, ao contrário, não irá muito longe.Promoverá certa transformação pessoal e coletiva, de uma sociedade menos individualista à mundo mais humanizado, que começa a despontar.

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