15 Jul 2024 Ellipse ATUALIZADO 20:12

Publicado

04/09/2022

Atualizado

31/01/2024
Publicação

O LOBO MAU MORA AO LADO

Por Pedro Henrique, poeta e escritor. Bacharel em Direito (UERN), Especialista em Direito Digital (Faculdade Verbo), mestrando em Estudos Urbanos e Regionais (UFRN) e Editor Colaborador do Observatório da Várzea.

As histórias infantis tem muito a nos ensinar. Melhor dizendo, as crianças têm muito a nos dizer, basta a gente querer e saber escutá-las. Nunca duvide da pureza da resposta e do olhar de uma criança! Quem nunca ouviu falar da história da chapeuzinho vermelho? Uma simples menina que ia levar doces para a sua vovozinha e, no fim das contas, foi vítima do lobo mau.

Mas, o lobo mau nem sempre anda de quatro patas, ou tem garras e dentes assustadores. Às vezes ele caminha conosco, sorri para nós, nos presenteia, tem uma vida aparentemente normal, uma família, um trabalho, tudo nos conformes. No entanto, no seu íntimo, debaixo da capa, da pele ordeira, do discurso moral, se esconde um devorador, com ótimo faro, estratégias e boa visão para capturar suas presas e triturá-las, sem dó. Não se engane, um lobo pode até se domesticar, a exemplo de seu primo, o cachorro, considerado o melhor amigo do homem, mas, no fundo, o seu instinto sempre vem à tona.

Fonte: Humanista (2020)

O tabu e a moral nos fazem idealizar violentadores como monstros, mas, eles são genuinamente humanos, podem ser nossos primos, tios, pais, avós. Essas pessoas não merecem a morte ou serem vítimas de violências ou linchamento, mas, sim, cumprirem sua pena dentro da lei, pois infringiram regras sociais. No fim das contas, após a pena, se espera que sejam ressocializadas e consigam conviver na sociedade sem repetir as antigas condutas que ferem e prejudicam o próximo.

Por serem consideradas presas fáceis, indefesas, mulheres e crianças podem ser escolhidas por algum lobo mau na calada da noite, na surdina, num beco ou rua escura, até mesmo dentro de casa, para um banquete. Muitas vezes, por medo ou pura ameaça, essas presas não conseguem gritar e pedir ajuda. Por isso é importante ouvir os seus sinais, mesmo os mais sutis.

Se me permitem deixar algumas dicas, observem o olhar de uma criança ou uma mulher, notem seus desconfortos, suas mudanças de comportamento, se repentinamente preferem a solidão, se estão afastadas dos seus ciclos de amigos, da religião, da escola. Quando uma violência acontecer, não marginalizem ou culpem a vítima. Pais, professores, líderes espirituais e comunitários, todos podem e devem auxiliar quem esteja fragilizado e correndo o risco de sofrer alguma violência. Aproximem-se, perguntem, acolham, permitam que possíveis vítimas se sintam seguras a falar.

É urgente falarmos sobre corpo e sexualidade nas escolas, nas igrejas, nos espaços públicos. Esse discurso moralista que transforma esses temas em tabu só fortalece o acontecimento de violações da dignidade sexual das pessoas, em especial mulheres e crianças. Além do que, violentam gays, lésbicas, transexuais, e todos que não se encaixam nos padrões. Todos temos o direito à nossa dignidade sexual, ao nosso corpo. Ninguém é autorizado a tocar em ninguém sem autorização. Ninguém tem o direito de bater ou violentar gays, lésbicas, transexuais, pelo simples fato de serem quem são.

Se me permitem outro conselho, histórias reais de chapeuzinhos vermelhos e lobos maus são muito mais comuns do que imaginamos. Abram os olhos e observem de perto. Se for preciso grite!

Referências

CUACOSKI, Stéffany. Cultura do estupro: 85% das vítimas no Brasil são mulheres e 70% dos casos envolvem crianças ou vulneráveis. In: Humanista, dezembro de 2020. Disponível em: .

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