03 Mar 2024 Ellipse ATUALIZADO 12:31

Publicado

21/05/2022

Atualizado

31/01/2024
Publicação

O ÚLTIMO ACORDE DO MESTRE FRANCISQUINHO

Por Pedro Henrique, poeta e escritor. Bacharel em Direito (UERN), Especialista em Direito Digital (Faculdade Verbo), mestrando em Estudos Urbanos e Regionais (UFRN) e editor-colaborador do Observatório da Várzea.

A música pode nos trazer a vida, mas é preciso treinamento de ouvinte para ter serenidade diante do silêncio da morte de um músico. No dia 18 de maio de 2022, um músico muito especial para o Assú fez silêncio. Francisco Frutuoso da Silva, o mestre Francisquinho, como era popularmente conhecido, nasceu em 25 de maio de 1938, e já se aproximava das nove décadas de vida e arte, mas partiu para o mundo dos encantados. Foi mestre do Centro dos Escoteiros Regional do Assú – CREA e formador musical de quatro gerações de músicos no Assú, junto ao maestro Cristóvão Dantas, dois amantes da música e da juventude. Francisquinho foi um homem de fôlego, talvez como só um saxofonista pode sê-lo.

A literatura, a música, a dança, o teatro e todas as manifestações artísticas são o nosso alimento para a alma. Sem elas é difícil chegar na esquina ou começar um novo dia. Mesmo com todas as dificuldades, descaso, abandono e desprestígio, não pergunte a um artista se ele abandonaria a sua arte: isso seria sua própria morte. Mas, nem só de arte vive um homem, e o que poucos sabem é que o mestre Francisquinho, por exemplo, também cuidou de alimentar o seu corpo físico, tendo sido um atleta atuante em nossa cidade.

Uma semana antes de completar seus 84 anos, o mestre Francisquinho se despede do Assú, homenageado ao som de muita música, tanto em sua residência, na Rua Bernardo Vieira, como também em seu sepultamento no Cemitério São Vicente de Paula. Mas, poeta que sou, gostaria de trazer o registro de uma emocionante e bela homenagem, feita pelo poeta Patrício Júnior, intitulada “Saxofone, não chores”.

Um jovem rural chega a conhecer pouco sobre sua própria cidade. As distâncias, os abismos, parecem nos empurrar, de modo que só nos restam o canto dos pássaros, a sombra dos umbuzeiros, a música das carnaubeiras e os bons momentos nas calçadas. No entanto, penso que são esses simples momentos e experiências que nos aproximam da criação de mundos, da capacidade de imaginar. Eu, por exemplo, não conheci muitos músicos do Assú, como o mestre Francisquinho, mas posso imaginar a grandeza de sua arte, sua visão e contribuição para a nossa cultura local. Mesmo assim, a música do mestre Francisquinho me soa aos ouvidos como o som de um carnaubal durante a noite em nosso semiárido: leve como o vento, resistente às mais áridas intempéries e naturalmente melódica, como o farfalhar das folhas.

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