22 Feb 2024 Ellipse ATUALIZADO 02:10

Publicado

19/06/2023

Atualizado

31/01/2024
Publicação

São João de Assú: Quem está preocupado com a tradição?

Os shows do mais antigo São João do mundo repete o sucesso de público em 2023, lotando todas as noites a praça central do município de Assú.

Por Gicardson Lima, Graduado em Letras, Inglês e Português pela UERN, Editor Colaborador do Observatório da Várzea

Após as primeiras noites de apresentações na Praça São João, onde está localizado o Anfiteatro Acelino Costa Leitão(palco dos shows) já podemos constatar o sucesso que são os festejos juninos assuense, isso se dá pelo expressivo número de pessoas que têm saído de suas casas para prestigiar artistas de renome nacional. Já passaram pelo São João 2023 nomes como: Mari Fernandes, Márcia Felipe, Michele Andrade, Nattan, Iguinho e Lulinha, Bel Marques, dentre outros. E lógico, não podemos deixar de citar o inigualável Flávio José, pois o músico foi alvo de uma polêmica em Campina Grande, onde teve seu show encurtado em 30 minutos para Gusttavo Lima no último dia 02 de junho. Além de nos agraciar com uma genuína apresentação digna de uma festa junina, durante seu show, entre uma canção e outra, Flávio José faz questão de enfatizar: “Viva o São João, né? Tão bom, meu Deus. Se fosse assim em todo canto, “néra?”Nossa cultura, nossa música”.

As palavras externadas pelo músico em pleno palco na noite de 17 de junho em Assú traz à tona uma discussão antiga, pois Luiz Gonzaga já alertava na década de 1940 a perda de espaço que o forró tradicional já estava perdendo para a bossa nova. No entanto, isso não acontece somente com o forró raiz, tradicional ou pé de serra. É decorrência em vários estilos musicais, porém, a discussão se acentua exatamente por ocasião das festas juninas, período de maior efervescência do forró.

Tal discussão acende um alerta ao que se refere à valorização da cultura dentro dos aspectos tradicionais da festa. Assim como em diversas partes do Nordeste, em Assú não seria diferente. O São João mais antigo do mundo por muitos anos passou e passa por uma descaracterização do formato tradicional, justamente por cause de suas atrações principais.

É nítida que há desigualdades na atribuição de valor (status quo/prestígio) por parte da Prefeitura do Assú com os artistas locais. Por outro lado, existe uma problemática, que é completamente compreensível, que envolve as festas juninas, o forró, os empresários, os políticos-gestores e a população nordestina que deseja cultivar certo “sentido” do forró e das festas juninas de um modo que respalde a regionalidade e alguns dos seus processos identitários. Acontece que o aspecto financeiro – o lucro, sobretudo – passou a ser foco de interesse prevalecente. O lucro tem sido proporcional à quantidade de pessoas aglutinadas nos locais destinados aos grandes espetáculos musicais e é distribuído majoritariamente entre empresários (de shows, artistas, hotelaria, comércio, etc.). Essa configuração da festa está alinhada com os empreendedores que, apesar dos belos discursos, pouco se preocupam com sustentabilidade, equidade, cidadania ou respeito às diferenças.

As festas juninas da nossa região e o forró são edificações identitárias dos nordestinos (e também dos brasileiros), símbolos de pertencimento, mediadores de afetos, de relações; formam um contexto amplo de compartilhamento de ideias, de alimentos simbólicos, de interação social e festiva (cultural); e entre outras coisas mais, formam um ambiente de trocas e de disputas econômicas, sociais e políticas.

Nesse sentido, há preocupação de Flávio José, quando no mesmo show de Campina Grande, foi justo em alertar aos seus fãs e admiradores que sua apresentação teria 1h e 10 minutos de duração, e que não era sua culpa caso alguns sucessos de seu repertório não fossem contemplados. O que justificou bem sua fala satisfatória durante o São João de Assú. Onde na noite anterior (16) ocorreu toda a musicalidade baiana de Bel Marques e sua guitarra elétrica, e mais uma vez surge a discursão: cabe um show de axé no São João da terra dos poetas? O que devemos levar em consideração de fato, a tradição ou a lucratividade? Quem ganha? Quem perde? Vale a pena arriscar a tradição em troca de ganhos econômicos? O que a gestores da festa podem fazer?

É importante, também contemplar outros estilos musicais, pois atingir vários grupos e gostos é sem sombra de dúvidas um aspecto da arte e suas mais variadas manifestações. Contudo, entre Gusttavo Lima, Bel Marques e Flávio José, quem melhor representa o momento em que estamos vivenciando nesse mês de junho? A questão não é diminuir o gênero representado pela música baiana ou até mesmo sertanejo, mas sermos conscientes de que há um momento no calendário do ano para cada um deles. E cabe ao executivo de Assú traçar uma estratégia para que o São João assuense ainda continue sendo chamado de “o mais antigo do mundo”, pois para ser o mais antigo, há de ter tradição, e tradição é expresso pela arte, por meio do forró e suas variações. Pelo Brasil a fora, há exemplos de cidades que destinam espaços para a música alternativa sem que a tradição perca seu lugar de destaque.

Isso se chama São João Sustentável, quando há mobilização pelo sentido de que os signos da tradição regional não sejam suplantados pela busca incessante de lucros crescentes e da mega espetacularização que alimenta essa ganância e camufla essa apropriação indevida da festa e a descaracterização do seu sentido comunitário.

Estamos observando…

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