22 Feb 2024 Ellipse ATUALIZADO 00:56

Publicado

06/04/2020

Atualizado

31/01/2024
Publicação

TRADIÇÃO DA SEMANA SANTA NA VÁRZEA

Por Dasia Alves, Pedagoga e Editora colaboradora do Observatório da Várzea

A Semana Santa é uma tradição religiosa cristã que celebra a Paixão, a Morte e a Ressurreição de Jesus Cristo. Ela se inicia no Domingo de Ramos relembrando a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém e culmina com a Ressurreição de Jesus no domingo de Páscoa.

Para os cristãos, a Páscoa é uma grande celebração que comemora a Ressurreição de Jesus Cristo e encerra festivamente um período em que católicos se dedicam a fazer orações e penitências relembrando a Paixão e Morte de Jesus.

A Semana Santa, com suas cerimônias litúrgicas, faz brotar em toda parte um clima diverso do que habitualmente vivemos.

A presença mais viva da Paixão de Cristo e o seu significado redentor provocam nos fiéis uma notável mudança de atitude neste período santo.

Em tempos não tão distantes, na Várzea, esses dias eram cumpridos a fio por grande parte da população. Relatos de pessoas mais velhas contam que, antigamente, os católicos viviam com mais intensidade este tempo litúrgico. Havia luto e a sensação de que tudo pairava no “ar”. Parecia que as pessoas, tementes a Deus, participavam das cerimônias religiosas até com certo temor. Àquela época, de luz à lamparinas e velas, sobrava escuridão e, então, à noite, sempre aparecia alguém que trombava com assombrações. Quando anoitecia, as crianças assustadas ficavam espreitando os “becos” pelas frestas das janelas. A simples passagem de pessoas já as atemorizavam e ficavam, as histórias, por conta das visões noturnas.

Além do mais, tinha a tradição popular do Judas. Um boneco feito com palhas de bananeira, paú e panos, vestido com calça, camisa e chapéu de palha. Judas foi o traidor de Jesus e, por isso, faziam essa brincadeira apedrejando o boneco, dando-lhe pauladas e até tiros de espingarda. Lembrando que isso somente os mais corajosos faziam.

Havia um sentimento cristão enraizado no comportamento das pessoas que lamentavam e choravam a morte de Cristo por uma semana. A vida normal do povo dava lugar a um sentimento de tristeza e lamentações e, durante a Quaresma, procurava-se jejuar, não se comia carne, principalmente. A rígida abstinência chegava até ao jejum absoluto para algumas pessoas.

Os relatos de fiéis nos contam ainda que, olhar-se ao espelho, usar batom e mesmo perfume, por serem sinais de vaidade; tomar banho, pelo perigo das tentações à vista do corpo, namorar, cantar, dançar e até assobiar, seriam sinais de uma alegria incompatível com um momento tão triste; embriagar-se nesses dias, seria condenar-se a nunca recuperar o juízo.

Consultamos dona Terezinha Rabelo, moradora da comunidade de Fazenda Nova que nos dizia o seguinte: “Domingo de ramos, as pessoas saiam em procissão carregando ramos verdes (geralmente eram palmeiras). Os ramos santos faziam-se lembrar que somos batizados, filhos de Deus, membros de Cristo, participantes da Igreja. Dessa forma, acolhiam Jesus abanando seus ramos. Quarta Santa, conhecida como a Quarta de Trevas, não se tomava banho por medo de entrevar e isso já era feito aguardando os Dias Grandes. A partir da quinta já não se comia carne nem nada doce. Tudo teria que ter o sabor amargo ou nenhum sabor. A Sexta Santa era tida como o dia grande, em que as Marias não varriam suas casas, não penteavam os cabelos, os poucos aparelhos de rádio eram desligados, nada de diversão! Nas igrejas e casas as imagens de santos e santas eram cobertas com panos, de preferência roxo. Isso acontecia em respeito a eles. O jejum era feito desde a manhã até o anoitecer. E para quem fazia alguma refeição, esta era a base de peixe. Os homens não se sentavam à mesa sem camisa neste dia e, ao se sentarem, faziam a bênção dos alimentos antes de comê-los.”

Dentro de toda a tradição, existiam pessoas que saiam pedindo esmolas nas casas. Os afilhados também procuravam seus padrinhos de batismo para tomar a bênção e trazerem suas esmolas. Caso voltassem sem a esmola, retornavam muito tristes. A esmola funcionava como uma espécie de troca entre as pessoas. Apesar do jejum, as donas de casa faziam muitas comidas. Um fato muito curioso era que os ordenheiros não podiam tirar o leite das vacas neste dia, pois este se transformava em sangue, segundo a crença popular.

Sobre o Sábado Santo, Dona Terezinha ainda lembra que neste dia os “vizinhos pregavam peças naquelas pessoas mais cuidadosas, roubavam galinhas para romper a Aleluia.” Alguns pagavam no dia seguinte a galinha que haviam roubado. Rompia-se a Aleluia após o relógio bater avisando o chegar da meia noite.

No Domingo de Páscoa, dia em que havia a missa em alguns poucos lugares e adornadas de seus terços, as mulheres iam rezar celebrando a Ressurreição de Jesus Cristo. Os melhores vinhos eram abertos e a grande festa acontecia nas famílias, munindo a todos de muita alegria. Era uma verdadeira festa pascal.

E assim, encerra-se a Semana Santa com a ressurreição de Jesus ocorrida três dias depois da sua crucificação no Calvário, conforme o relato do Novo Testamento. É a principal celebração do ano litúrgico cristão e a mais antiga e importante festa do judaísmo e do catolicismo.

Neste tempo de reflexão, em que estamos voltados para a nossa casa física e espiritual, trazemos este relato importante sobre como era vivido esse tempo religioso pelos antigos para que possamos lembrar das nossas origens e valorizar as nossas tradições. Oxalá com a alegria de vivê-lo.

A todos, uma Santa Semana abençoada por Nosso Senhor Jesus Cristo.

Estamos observando…

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