03 Mar 2024 Ellipse ATUALIZADO 12:10

Publicado

13/04/2022

Atualizado

31/01/2024
Publicação

A VISÃO DE MANOELZINHO

Por Pedro Henrique Farias. Poeta, escritor e mestrando em Estudos Urbanos e Regionais

No início das tardes, por volta das 14h às 15h, lembro-me bem de ver passar na rua de areia, às margens da RN-016, alguns vendedores carregando consigo um isopor apoiado por uma alça nos ombros, oferecendo dindins, doces de leite, beijus, cocadas e outros deliciosos quitutes. Um deles me chamava atenção, por seus passos firmes, precisos, atentos, sempre de óculos escuros, roupa bem passada, consistente em calça e camisa de botões. “Lá vem Manoelzinho cego”, diziam-me. Na verdade, isso aumentava ainda mais minha curiosidade, pois, como um homem cego poderia caminhar numa rodovia sozinho, vender e ainda passar troco? De fato, isso era possível, e Manoelzinho o fazia com brio. Ele nunca se confundia com o troco, mesmo que o comprássemos um dindin e lhe déssemos uma nota de cem reais, logo se via as suas mãos ágeis tatear as notas e moedas, e então, certeiramente, de uma contagem só, nos passava o troco devidamente.

Ontem, 12/04, Manoel Vicente Filho, popularmente conhecido por Manoelzinho do Bar do Povo ou Manoelzinho Cego, completou mais uma volta ao sol. Um assuense nascido em 12 de abril de 1952, e que agora completa 70 anos de vida e trabalho. Manoelzinho, pai de 05 filhos, é um dos quatro irmãos que também tem cegueira em sua família, além de outros dois sobrinhos, o que parece ser de ordem hereditária. Sua atuação em benefício da várzea sempre foi presente nessas 7 décadas, ganhando maior destaque com sua participação no Conselho Especial das Associações Comunitárias do Assú – CEACA, criado nos anos de 1995, tendo ele contribuído com a criação da 1ª Farmácia Comunitária do Rio Grande do Norte, juntamente aos colegas Ivaneto Barbosa, Luiz Carlos Dantas e Aldo Cardoso. Foi essa turma que plantou as belíssimas palmeiras que ornamentam a entrada da Capela de Nossa Senhora da Conceição em Nova Esperança, a mais bela de toda a várzea. Manoelzinho é o único cidadão assuense que recebeu um título honorífico do CEACA.

Além de sua habilidade com vendas e seu espírito comunitário, Manoelzinho também foi um artesão habilidoso, já que confeccionava ralos utilizando latas de óleo, ao que com auxílio de marceneiros da comunidade cortava as latas do tamanho que queria, furava-as e pregava-as em madeira. Esses ralos foram muito vendidos por ele na várzea e mesmo na cidade do Assú.

Manoelzinho liderou reiteradas vezes a Associação Comunitária de Nova Esperança – ASCONE, mesmo quando a entidade não era nem mesmo formalizada, destacando-se por sua competência, liderança, articulação, espírito coletivo, senso de justiça e apurada compreensão política. Logo após a formalização da ASCONE, no ano de 1993, Manoelzinho foi vice-presidente junto a Ivaneto Barbosa por mais oito anos, tendo somente deixado de sê-lo de fato e de direito, em razão de questões burocráticas, por não ser alfabetizado e pela cegueira. Ora, no Brasil, parece que estamos sempre rumo à bestialidade, pois, não faz o menor sentido impedir, por questões meramente formais, que um líder nato, com experiência, talento, competência, como Manoelzinho, deixe de assumir uma função que faz com maestria, considerando que ele conhecia cada problema e tem o respeito da comunidade, além de prestígio em todo o Assú. Deixo aqui as sábias palavras de Drummond: “Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos. As leis não bastam. Os lírios não nascem da lei”.

Apesar disso, desses que “atravancam o seu caminho”, como diria Mário Quintana, mesmo fora da lei, a atuação de Manoelzinho não foi impedida e continuou reverberando e não se restringiu somente ao âmbito da associação, pois a sua visão sempre foi o coletivo, está em seu DNA a luta por dignidade e justiça. Tanto que ele trabalhou em prol da comunidade de Nova Esperança na idealização das placas das ruas, em mutirões de limpeza do cemitério, pinturas de túmulos, e por muitas vezes usou a sua voz para denunciar o descaso público com as comunidades, por meio de participação em programas de rádio no Assú.

Atualmente, Manoelzinho sofre do mal de Parkinson, doença neurológica que afeta os movimentos, mas, mesmo assim, está lúcido, se movimenta pela sua casa, só não consegue caminhar pela comunidade que tanto ama, o que o faz receber muitas visitas pela sua relevância, já que ele é verdadeiramente um patrimônio vivo da várzea do Assú. Um exemplo disso é que Manoelzinho foi agraciado com o título de presidente de honra da ASCONE. É por essas e outras razões que a vida de Manoelzinho, que nos é tão inspiradora, deve ser comemorada e ressaltada, para que o tempo não apague as suas contribuições para a história da várzea do Assú. Vida longa a Manoelzinho!

Nota: Gostaria de agradecer a Antonio Edson (filho de Manoelzinho) e Aldo Cardoso, por me fornecerem informações que me ajudaram na escrita desse texto. Na verdade, a minha intenção inicial seria visitá-lo e entrevistá-lo, mas, a correria dos afazeres me impede de fazer isso atualmente. Mesmo assim, ao saber de seu natalício, não hesitei em escrever sobre sua vida, que é inspiradora.

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