15 Jul 2024 Ellipse ATUALIZADO 08:59

Publicado

03/07/2020

Atualizado

31/01/2024
Publicação

O TOURO DE BRONZE E O DESESPERO COMO CULTURA POLÍTICA

Por José Elias Avelino, Graduado em História pela UERN, cursando Especialização em História, Cultura e Política pela FACESA. . Militante Cultural.

Na imagem do artista Pierre Woeiriot (French, 1532–1599), temos retratada a história do Touro de Bronze, Touro Siciliano ou Touro de Fálaris, uma ferramenta de tortura e assassinato atribuída ao tirano Fálaris de Agrigento na Sicília, no século VI antes de Cristo. Segundo o historiador Diodoro Sículo, o ditador Fálaris teria convocado o artista Perilo de Atenas para que construísse uma máquina de atrocidades em forma de touro. Depois da obra concluída o tirano teria ordenado ao artista que entrasse no Touro para que demonstrasse com precisão a metodologia que seria empregada no momento de subjugar os desafetos e como funcionariam os mecanismos do Touro.

No entanto, quando Perilo estava dentro do Touro, Fálaris ordenou aos seus servos que trancassem o artista e acendesse uma fogueira em baixo do Touro, o tirano queria ver a máquina em funcionamento. Em poucos minutos Perilo estava sendo queimado vivo e tentando se desvencilhar da fumaça produzida pela queima da própria carne. Para fugir da fumaça e agonizando de desespero o artista buscou respirar pela tubulação em espiral próxima a região interna da boca do animal, ao respirar pela abertura produzia-se um som semelhante a um instrumento de sopro, simulando o mugido de um boi.

Não é possível precisar o que de fato ocorreu com Perilo, em algumas versões da história o artista teria sido morto, vítima da própria criação. Outra versão aponta que ele foi retirado com vida, mas como os seus ferimentos eram muito graves o jogaram de um abismo. Ainda em uma terceira versão, diz-se que o artista foi retirado vivo e, posteriormente, em um levante contra o governo de Fálaris, ele e outros teriam executado o tirano em praça pública.

De fato, quando uma pessoa era trancada dentro do Touro de Bronze, não havia o que fazer, era só esperar pela morte. Com a fogueira aquecendo, o bronze produzia um quentíssimo forno, a superfície em contato direto com as chamas transformava o Touro em uma gigantesca frigideira.

Na história do Touro de Bronze, temos um artista sendo trucidado para divertimento de um tirano. Ironicamente, Perilo foi morto pela própria criação em mais um episódio onde a arte é utilizada como meio para manutenção ou obtenção de poder de grupos e/ou sujeitos autoritários. Arte como um meio para atingir determinado fim é um fato muito presente na conjuntura política brasileira, mesmo considerando toda a contribuição que a criação do Ministério da Cultura (Minc) em 15 de março de 1985 representou para o país, a sua constituição estava atrelada a demanda por uma cultura nacional idealizada.

Em 2020, a função utilitária da arte estará novamente presente na disputa eleitoral em curso, já que durante essa ocasião, tradicionalmente os candidatos utilizam a cultura para nos bombardear com promessas curiosas, alegando que irão resolver as nossas mais complexas dificuldades sociais, econômicas, ambientais e etc. Segundo essas promessas, tudo será “concertado” com um piscar de olhos, educação, saúde, segurança, até mesmo a arte costuma entrar no balaio das apaixonadas bravatas eleitoreiras.

Se durante a disputa eleitoral os candidatos dispõem de soluções fáceis para as nossas problemáticas, por que razão eles perdem o rebolado quando são eleitos? Curiosamente, muitos esquecem até mesmo as próprias promessas de campanha e enquanto substituem as demandas públicas pelos interesses privados e projetos de perpetuação no poder, direcionam o discurso público para convencer a população sobre a escassez de recursos. Segundo os eleitos, não há dinheiro para fazer nada, mas tal constatação não os impedirá de fazer as mesmas propostas nas campanhas seguintes.

Infelizmente a nossa cultura política que é historicamente marcada pelo patrimonialista, mandonismo e pelo desrespeito a princípios como os da impessoalidade, contribuem para que algumas figuras políticas continuem enxergando a prática política apenas como uma estratégia para eternizar os privilégios de famílias e elites locais, enquanto outros a encaram como uma mera escada para obtenção de benefícios individuais.

Sendo assim, a política como exercício de gestão da coisa pública com vistas ao bem comum nunca chega a tomar forma, é uma presença-ausência, fica restrita ao imperativo dos desejos individuais em detrimento das necessidades coletivas. Nesse cenário anômalo, no lugar de política pública temos o reino do favor, no lugar do eleitor, temos a anacrônica figura do vassalo e ao invés da autonomia e da emancipação do cidadão, temos um indivíduo encarcerado em uma trama histórica que impossibilita movimento em direção à dignidade humana.

Um passo necessário para corrigirmos essa realidade é assumirmos a democracia e a república como uma irredutível prioridade social, já que amadurecê-las não é dever apenas das instituições, porque demanda um hercúleo esforço coletivo e todos nós somos desafiados a consolidá-las.

Dentre as várias leituras possíveis, podemos analisar que o martírio de Perilo não foi apenas um momento que produziu alegria ao tirano Fálaris ao ver o sofrimento do artista transmutado em música/mugido, ela também pode ser lida como o reflexo da conivência de um artista com um sistema opressor.

Para concluir, desejamos que você artista, liderança política que dialoga com a precária cultura política dos nossos lugares, não seja descartados ou exterminados pelos grupos hegemônicos assim que vocês realizarem os desejos dos seus senhores. Não seja um Perilo.

Em um sistema que não prima pela dignidade humana a arte e a cultura podem até serem aceitas, desde que esteja a serviço dos projetos e das memórias dos grupos hegemônicos, somente uma arte morta, vendida e destituída de capacidade de indignação e questionamento tem a permissão de existir nas regiões onde a república ainda não atingiu o grau de maturidade necessária para constituir uma cultura política emancipatória.

Por uma cultura política radicalmente republicana!

BIBLIOGRAFIA

Diodoro Sículo (Biblioteca Histórica, Livro IX, 19)

Disponível em: https://reitigre.wordpress.com/2013/01/09/touro-de-bronze-touro-de-flaris/. Acessado em: 15 de Abril. 2020.

Disponível em: https://matrixdesvendada.blogspot.com/2015/12/medieval-torture-crime-touro-de-bronze.html Acessado em: 06 de Jun. 2020.

Disponível em: http://www.artnet.com/artists/pierre-woeiriot/le-sacrifice-au-veau-dor-zUAg3sizFtNaGFlEWGq-Gw2 Acessado em: 24 de Jun. 2020.

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